Lula não vencerá, por ora, a batalha dos juros. Mas a autonomia do BC também não será a mesma

STUMP COMUNICA

Centrais Sindicais protestam contra juros altos em frente ao prédio do BC, na Avenida Paulista. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

ADRIANO BARCELOS

“Sem saber que era impossível, foi lá e fez”. A frase, de autoria do poeta francês Jean Cocteau, ilustra muito bem aquele sentimento que hermana os gênios disruptivos e os destrambelhados sem noção. Como é costumeiro à filosofia de baixa categoria, a classificação específica do ato não se dá pela razão, motivação ou qualidade – mas pelo produto final. Reembalando o conceito: a diferença entre um gênio disruptivo e um destrambelhado sem noção é somente o resultado.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é alguém escolado em desconhecer o impossível, sua própria trajetória denuncia. Seu pendor por perseguir seus objetivos é conhecido e, de posse da faixa presidencial e superada a ameaça de golpe de Estado de 8 de janeiro, Lula identificou um risco potencial a seu projeto de governo: a taxa de juros.

Na gestão Jair Bolsonaro, houve a consolidação da autonomia do Banco Central. O Brasil é um país marcado pela instabilidade e, afinal, despartidarizar o Banco Central parecia uma boa ideia. “Muitos países de primeiro mundo têm BC independente”, foi o argumento uníssono que escorreu pelas calçadas da Faria Lima, molhando as rodas dos patinetes elétricos. 

PECADOS DE CAMPOS NETO LEGITIMARAM LULA, MAS ESTRANHO SERIA SE NINGUÉM PERCEBESSE

Acontece que Campos Neto, o presidente do BC, cometeu pelo menos dois pecados que minaram o lustro “técnico” que seria desejável para quem pleiteia isenção: se misturou demais com bolsonaristas e entregou a taxa de juros mais alta do planeta. O que ele fez para domar a inflação (não conseguiu, ficou fora da meta), convenhamos, é fácil demais. É como pôr o ovo em pé quebrando a sua base: enxugou o crédito e reprimiu o consumo, baqueando a inflação (e o PIB). Pelo outro lado, o BC independente é alguém que faz contas para os outros pagarem. Com juros de 13,75% ao mês na Selic, o Tesouro (dinheiro dos impostos) pagou R$ 586 bilhões pelo “serviço da dívida pública” – R$ 1,6 bilhão por dia, sem folgas nem sábados, nem domingos, nem feriados. 

Lula, então, fez o que ninguém havia pensado em fazer: protestou. Protestou. Criticou Campos Neto, chamou-o de “aquele rapaz”. A grita da imprensa, especializada e bem pouco especializada, veio forte. Quem Lula pensava ser, afinal a Faria Lima inteira diz que o juro é alto porque o governo gasta demais etc, etc, etc???? O bloco monolítico da crítica a Lula foi fazendo água com o andar dos dias. André Lara Resende, tucano insuspeito, um dos pais do real, chocara o establishment ao concordar com Lula: a dívida pública brasileira é em moeda nacional, a relação dívida x PIB do Brasil não é diferente de outros países do mesmo porte etc, etc, etc. O setor produtivo, engolfado pela disputa ideológica de 2022, foi aos poucos eclodindo, com vozes fortes do varejo e da indústria dizendo que talvez, é verdade, os juros estejam altos demais. 

O que Lula fez, ao discutir o indiscutível, possui uma designação específica e já foi estudado na academia. Em português, tem o pouco atrativo nome de “Janela de Overton”, cunhada em referência a Joseph Overton, ex-vice presidente do Centro de Políticas Públicas de Mackinac, de Michigan (EUA). Grosso modo, a Janela de Overton consiste observar, sobre determinado assunto, que aspectos podem ser abordados antes que a autoridade seja rejeitada pela opinião pública; a partir disso, a autoridade pode reenquadrar o debate, a partir de aspectos diferentes do mesmo tema e, a partir daí, levar a sociedade (ou parte mais engajada dela) a repensar o impensável. 

A Janela de Overton é um conceito que precisa ser visto com cuidado. Em parte, porque foi marginalizado: no século XX foi visto como método de “manipulação” e que envolvia princípios maquiavélicos aplicados por empresas de “PR” sem escrúpulos, à guisa de fazer a sociedade tolerar mudanças intoleráveis em troca de milhões de dólares nos bolsos dos Midas da comunicação social de Manhattan. Não parece a faixa de terreno onde Lula pisa. Antes, pode ser visto como uma reação simplória – ou até uma blindagem para eventuais fracassos econômicos do governo que começa, por que não? 

Lula se deu conta de que não faz diferença descontentar ou não a Faria Lima. Uma pesquisa do Genial Quaest divulgada em 15 de março revelou que 100% dos integrantes do “mercado financeiro” não têm boas expectativas sobre Lula. Sim, isso mesmo: em valores nominais 98% – com a margem de erro, 100%. Como bem ilustrou Reinaldo Azevedo, o que a pesquisa traz de novo é que o etéreo “mercado” pode ser arbitrado em 82 pessoas, os entrevistados. Parece razoável.

GRITARIA DA ESQUERDA VAI DAR EM NADA, JUROS BAIXARÃO QUANDO CAMPOS NETO ACHAR QUE DEVEM  

Assim sendo, por que Lula faria diferente? Campos Neto deu uma entrevista de gosto duvidoso ao Roda Viva, da TV Cultura, em que diz que meninos que pedem dinheiro no sinal hoje em dia oferecem suas chaves pix. É meio como o comandante do Titanic se orgulhar da madeira de que é feito o timão do navio e ignorar que ele afundou. Mas ainda não foi tudo: o melhor que Campos Neto conseguiu dizer foi que o governo merece um voto de confiança, como se o mandato popular já não bastasse para convalidá-lo. 

A julgar pelos 82 guerreiros da enquete da Quaest, Lula sabe que não contará com o apoio do capital financeiro. O crescimento, se vier, virá do consumo das famílias e de investidores estrangeiros, pouco familiarizados com o fla-flu político nosso de cada dia. 

Mesmo assim, Lula usou sua Janela de Overton para empurrar o juro para baixo e isso foi inédito, no sentido de que não havia sido dito antes. Sobre esse fato, pairam duas notícias, uma boa e outra ruim:

Gritar na porta do BC, com bandeiras vermelhas e faixas escrito “Fora Campos Neto” não garante que o juro vai baixar. Aliás, nem favorece. Se o “arcabouço fiscal” do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, passar sem contestações, o caminho parece ser menos sobressaltado e mais efetivo.     

 Ou seja, objetivamente o juro não baixará porque Lula assim o quer. Não baixará, também, por conta da gritaria da esquerda e da contestação da ala sensata do capital brasileiro de que sim, os juros não precisam estar na estratosfera para conter a inflação – que sequer ficou dentro da meta em 2022.

O que importa disso é que o Banco Central seguirá independente, até pela falta de ideia melhor. Só não haverá mais licença para que seja imperial. Ou alheio à realidade. Para os economistas de mercado, a sociedade é composta de números que pululam de um canto a outro nas planilhas de excel. Pois os números não sabiam que podiam reagir. Agora sabem.

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